Ler Economia Donut é difícil. Não pela leitura em si, mas pelo quanto ele mexe com a gente. Volta e meia eu parava de ler e me pensava “que diabos de sociedade é essa?”. Mas a mesma autora que te de joga no bueiro, te mostra caminhos para sair de lá. E é isso que vou mostrar agora com um resumo completão do livro Economia Donut.
Ah! Antes de começar o resumo do livro, eu queria dizer que enquanto estava terminando esse texto, Amsterdã decidiu aplicar o modelo de Economia Donut para o país sair da crise instaurada por conta do Coronavirus. Então, acredite que o que está aqui, por mais utópico que seja, pode ser um caminho para nossa salvação.
Resumo do livro Economia Donut
O Livro Economia Donut foi escrito pela economista Kate Raworth. Ela estava insatisfeita com as coisas do jeito que estão e foi atrás de pesquisadores que também pensavam outras formas de economia. Algo que não se resumisse a achar que um país só é bem sucedido se crescer e acumular riquezas.
Ela achou vários. Um exemplo foi o pensador social inglês Jonh Ruskin, que em 1860 já mostrava alternativas. Ele contestava o modo como lidamos com economia afirmando que “não existe riqueza a não ser a vida. O país mais rico é aquele que alimenta o maior número de seres humanos nobres e felizes”.
Outro que ela encontrou foi o economista ganhador do Premio Nobel, Amartya Sem, que afirmou que o foco do desenvolvimento deveria estar em “avançar a riqueza da vida humana e não da economia na qual os seres humanos vivem”. Não é muito o que a gente tem visto nos últimos dias aqui no Brasil com o Corona não…

Kate Raworth usa boa parte do livro para mostrar como tudo que a gente entende hoje como o que deve ser seguido foi montado para acreditarmos que bastava a economia crescer pra ficar tudo bem. Aquela história de fazer o bolo crescer, para depois repartir, sabe?
Só que a que custo? Leis ambientais são desrespeitadas, regulações de saúde ou trabalhistas burladas. Tudo isso para quê? E para quem? A gente tem visto que as coisas só têm ido bem mesmo para uma minoria. Até hoje não vi esse bolo crescer. Ou o fermento tá ruim ou tem rato nessa cozinha.
Mas não adianta ficar só reclamando. Logo no começo tem uma frase que eu amei e que agora tomei como mantra. É um dos principais inventores do século XX, Buckminster Fuller: “Você nunca muda as coisas combatendo a realidade existente. Para mudar algo, construa um modelo novo que torne o modelo existente obsoleto”.
A Economia Donut
Foi isso que ela fez. Com diferentes referências, criou um novo modelo de economia.
Antes de mais nada, a gente precisa assumir que a economia não é simples. É complexa pra caramba e que pequenas alterações levam a grandes mudanças no resultado (para entender melhor ler esse outro resumo de livro aqui).
Não adianta tentar melhorar a vida da população fazendo previsões econômicas com dados rasos, levando em conta só produção e acumulo de riqueza. É preciso entender que outros fatores devem entrar nessa equação, como as questões sociais e ecológicas. Isso interfere absurdamente no resultado!
Por conta disso, a autora decidiu criar um desenho que ilustrasse bem essa dinâmica. Criou um donut com os principais elementos que devemos nos atentar para o equilíbrio da nossa forma de vida.

A rosquinha é dividida em três partes. A parte de dentro é onde as pessoas caem quando ficam sem casa, dinheiro, água e alimentação. Não queremos que ninguém fique ali. O objetivo é que todos fiquem dentro do donut, mas sem aumentar demais a pressão no sistema de vida do planeta. Se isso acontecer, teremos problemas climáticos, oceanos ácidos e florestas desmatadas. Não pode nem deixar as pessoas desassistidas, mas também não acabar com o meio ambiente.
Como conseguir uma Economia Donut?
É preciso saber onde mexer. Precisamos, como disse a pesquisadora Donella Meadows, “aprender a encontrar os pontos de alavancagem”, aqueles lugares num sistema complexo em que uma pequena mudança numa coisa pode levar a uma grande mudança em tudo.
De acordo com os pesquisadores que Kate levantou, um desses pontos de alavancagem é diminuir a desigualdade, “os efeitos da desigualdade não estão confinados aos pobres. A desigualdade prejudica o tecido social de toda sociedade”. Sociedades mais igualitárias, sejam ricas ou pobres, revelam-se mais sadias, sustentáveis, democráticas e mais felizes.
E como faz isso? Ela afirma que não basta distribuir dinheiro. É preciso distribuir as fontes de riqueza também. Como você deve ter pensado a mesma coisa que eu, ela veio com a frase “se isso parece completamente inviável, um sonho utópico e tolo, então continue lendo”. Daí ela começa a destrinchar algumas iniciativas que já estão acontecendo mundo a fora.
Fatores para diminuir a desigualdade
Uma delas é a distribuição de terras. E se você tem uma fazendinha, relaxa. Não é o seu caso. São os grandes! É distribuir terras que estão paradas para especulação. Ela cita exemplos no Nepal, Japão e Coréia do Sul onde isso deu muito certo.
Depois ela levantou a distribuição da capacidade de “fazer dinheiro”. Fiquei chocada como nunca tinha pensado nisso. Hoje os bancos são quase os únicos que “criam dinheiro”. Só que o dinheiro que eles geram não é voltado para empreendimentos produtivos, mas basicamente para criar empréstimos e lucrar sem produzir nada.
Como contraponto, a autora mostra que existem diversos exemplos de comunidades que criam suas moedas. Ela traz dois exemplos bem-sucedidos: um bairro no Quênia e uma cidade na Suíça. Mas aqui no Brasil nós também temos exemplos. Tem uma cidade no Piauí que criou uma moeda, o Cocal, que só circula lá dentro. Foi criada porque lá não tinha banco e todo dinheiro que chegava ia para outro município. Hoje, o cocal já representa 30% do dinheiro que circula no município e transformou a economia local.

A terceira é a distribuição das empresas. Ela traz inúmeros exemplos de empresas possuídas pelo empregado, como cooperativas e organizações de trabalhadores. As 300 maiores cooperativas do mundo hoje geram em torno de 2,2 trilhões de dólares de receita.
Ela ainda cita outras maneiras de distribuir as fontes de riquezas, como distribuir conhecimento e tecnologia. Seja criando espaço makers, difundindo informação ou compartilhando patentes. Kate enumera inúmeras iniciativas de instituições que estão difundindo conhecimento e tecnologia no mundo.
Somos todos economistas
Os dois últimos capítulos trazem mais formas e exemplos de mudar a relação com a economia. Seja empresa, governo ou cidadão, como podemos fazer nossa parte neste novo modelo de economia que tanto precisamos, especialmente agora que estamos vendo o modelo tradicional falir?

Mais do que dinheiro e acumular riquezas, esse momento traz uma reflexão sobre o que é importante para o ser humano. Ela cita uma pesquisa da New Economics Foudantion, que reduziu a cinco, os fatos que nos trazem bem-estar: conectarmo-nos com pessoas ao nosso redor, sermos ativos em nossos corpos, prestarmos atenção ao mundo, prendermos novas habilidades e darmos aos outros.
Bem o que estamos sentindo ultimamente, né? Eu quero acreditar que essa crise é uma oportunidade para encontrarmos um caminho melhor. No lugar de esperar o bolo crescer, quem sabe distribuir os ingredientes para que todos possamos fazer, pelo menor, nosso cupcake. = )
Venha para o time dos Descobridores!
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5 comentários
Adoro seu blog! Muito conteúdo interessante! Parabéns!!!
Maria Júlia, muito obrigada pelo feedback! Me faz continuar!
oi Bárbara, não vi a fatia da cultura nessa donut, a cultura e a arte que é tão essencial para a economia e para a vida de maneira geral. Gostaria de saber se a cultura está inserida nesse novo modelo de economia, pois parece maravilhoso, mas sem a cultura certamente seria um erro.
Jéssica do céu!!!!!!!!! sensacional! Não tem… vou mandar um email pra ela! ELa até fala lá no final do livro rapidamente sobre aprender algo novo, ativar a criatividade, mas não tá claro. Vc tem toda razão.
Babi, que dica de leitura incrível! Já está na fila dos meus próximos momentos entre as letras. E, em retribuição, minha dica é o livro do Harari “21 lições para o século 21”. Atual, interessante, para reflexão. Temas sérios, é preciso pensar a respeito. Vc já o leu?