Três livros pra você parar de se reprimir

O que você esconde aí dentro??? Ou melhor… quem você esconde aí dentro de você??? Já parou para pensar quantos eus existe dentro de você? Várias pesquisas têm tentado entender como a gente é o que é, esse turbilhão de sentimentos, desejos e opiniões, muitas vezes conflitantes. Mas enquanto os pesquisadores não chegam a uma conclusão, tem escritores desenvolvendo esse tema e mostrando que, no fundo, todo mundo é meio esquizofrênico

Hoje, decidi escrever sobre três livros que falam sobre esses vários eus que nos habitam. Um bem diferente do outro, mas todos mostrando que dá ruim reprimir uma parte de você e tentar sem uma pessoa só. Tentar se encaixar num padrão, em algo aceitável, homogêneo e previsível. Que adoece, endoidece ou traz infelicidade ser normal.

Vamos abraçar nossos vários eus? Então inspire-se nesses livros para se tornar uma metamorfose ambulante e parar de se reprimir. Vou começar pelo mais simples e ir aumentando nossa complexidade existencial juntos.

A morte e a morte de Quincas Berro D’agua

Esse é um daqueles livros que você lê num dia só de tão pequeno. Foi escrito por Jorge Amado, em 1959. O Livro traz a história de um homem que passou a vida toda dentro da linha. Não cometia nenhum excesso, não bebia, era bom pai, bom funcionário, bom marido.

O livro vai mostrando tudo que ele aguentou calado e resignado até que surtou. Cansou daquilo tudo e decidiu assumir uma outra personalidade. Foi viver o oposto disso tudo, uma vida de bebida, amores, sem gente mandando nele e onde não era preciso bater ponto. Ele mudou até de nome!

Leia um trechinho:

“Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário das Mesa de Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços, esposo modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão. Como pode um homem, aos cinquenta anos, abandonar a família, a casa, os hábitos de toda uma vida, os conhecidos antigos, para vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos, frequentar o meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável? … Loucura não era, pelo menos loucura de hospício, os médicos tinham sido unânimes. Como explicar isso, então? ”

É um livro divertido, leve, bom para gente começar a entender que não precisamos viver do mesmo jeito durante toda vida.

O médico e o monstro

Deliciosamente bem escrito, esse livro de Robert Louis Stevenson é belo! Como boa parte das pessoas já deve saber, o livro conta a história de um médico famoso que criou um poção capaz de trazer à tona o lado mais obscuro de sua personalidade.

Aqui, mais uma vez temos o efeito de quem a vida toda tentou só mostrar o lado bom que tinha. O médico relatou que reprimia desejos, vontades e sentimentos em troca de aceitação. Daí, quando bebe a poção vai percebendo como é prazeroso se permitir fazer mais do que o que esperam dele.

Neste livro, já temos um sinal de que existe mais aqui dentro do que a gente imagina.

“A cada dia, e a partir de ambos os lados de minha inteligência, moral e intelectual, eu chegava mais perto dessa verdade, cuja parcial descoberta me condenar a ruína: a verdade de que o homem não é verdadeiramente um ser, mais dois. Digo dois porque meu conhecimento, no estágio em que se encontra, não vai além desse ponto. Outros hão de seguir, outros irão me superar neste mesmo objeto de pesquisa; arrisco palpite que o homem acabará por ser conhecido como uma mera sociedade organizada de habitantes independentes, variados e incongruentes. ”

O médico e o monstro traz reflexões psicológicas deliciosas e é super bem escrito. Vale como aprendizado de bom texto. Curto, nada óbvio e que te arrebata logo no início.

O Lobo da Estepe

Outro amorzão! Hermann Hesse é um dos meus autores prediletos e esse livro… é de pirar o cabeção. Ele conta a história do Harry, um homem que havia aprendido tudo sobre ser um bom homem e era bastante ponderado. O que não havia aprendido era estar contente consigo e com própria vida. Nisso, ele acaba se dividindo entre ser homem e um Lobo da Estepe, que era como chamava um outro lado dele mais sombrio.

O livro traz o relato da briga desses dois dentro dele. O lobo e o homem se odeiam, mas têm que dividir o mesmo corpo, o mesmo sangue, a mesma alma. E no fim Harry vai tendo a noção que não são dois. Tem vários Harrys ali dentro.

Segue um dos trechos mais lindos, que me marcou pro resto da vida e que dialoga com muito do que tenho lido, visto e experimentado sobre mudança de vida. É um trecho do livro em que as coisas vão ficando meio surrealistas… o Harry se deparada com um homem em frente a um tabuleiro de xadrez, que lhe pede algumas peças. Quando Harry pergunta quais peças, o jogador de xadrez entrega um espelho pra ele.

 “Ergueu um espelho diante de mim e nele voltei a ver a unidade de meu ser decomposta em muitos eus, cujo número parecia haver aumentado ainda mais. Só que as figuras eram agora muito pequenas, semelhantes a peças de xadrez, e o jogador tomou com toda a calma e precisão com a ponta dos dedos uma dúzia delas e colocou-as no solo junto ao tabuleiro. O homem começou a falar monotonamente, como quem se refere a uma conversação mantida com outra pessoa ou como quem repete uma lição.

 — O falso e infeliz conceito de que o homem seja uma unidade duradoura já é conhecido pelo senhor. Também já sabe que o homem é formado por um número incalculável de almas, por uma multidão de egos. Dividir a unidade aparente do indivíduo nessas numerosas figuras é algo que passa por loucura; a ciência encontrou para esse fenômeno a designação de esquizofrenia.

[…] Com seus dedos serenos e prudentes apanhou minhas peças, todos os velhos, jovens, crianças, mulheres; todas as figuras, as alegres e as tristes, as fortes e as delicadas, as ágeis e as lerdas, ordenou-as rapidamente em seu tabuleiro para o jogo, no qual logo começaram a formar grupos, famílias, prontas a jogar e a lutar, criando amizades e inimizades, edificando todo um mundo em miniatura.

Deixou desfilar diante dos meus olhos aquele mundo liliputiano, um mundo cheio de animação mas bastante ordenado, deixou que se movesse, jogasse, lutasse, fizesse pactos, desse batalha, trocasse votos, unindo-se, multiplicando-se; era, de fato, um drama repleto de personagens, vívido e interessante.

E assim foi o sábio arquiteto construindo com as figuras, que eram fragmentos de mim mesmo, vários jogos, uns após outros, todos semelhantes, todos participantes de um mesmo mundo, todos submetidos a um mesmo destino, mas sempre inteiramente novos. — Eis a arte da vida – disse doutoralmente. — O senhor mesmo pode formar e viver no futuro um jogo de sua própria vida à sua vontade, desenvolvendo-o, enriquecendo-o; está em suas mãos fazê-lo”.

Aí você diz mais o que depois de um texto desse??? Nada, né? Só reforça o que o Hermann escreveu…. No lugar de tentar sufocar seus vários eus, vamos usá-los para construir as vidas que queremos viver.

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