Em meio ao ritmo acelerado de uma cidade que parece transformar tudo em descartável, ainda há quem preserve a cultura do conserto, do cuidado e da troca de gestos. Recentemente, ao procurar um lugar onde meu guarda‑chuva – ainda em bom estado, porém com pequenos defeitos – pudesse receber atenção, deparei‑me com uma das raras oficinas que ainda sobrevivem em Brasília.
O dono da pequena loja azul, cujo nome é Alexandre, chama a atenção antes mesmo de abrir as portas. O estabelecimento, todo revestido por um tom de azul que remete ao próprio céu que coberto por um guarda‑chuva queremos proteger, parece ter sido montado a partir de materiais que outros já considerariam lixo. Cada canto do espaço conta uma história de reaproveitamento, e a presença de Alexandre, com sua postura calma e concentrada, reforça o contraste entre o consumismo rápido e a paciência do reparo.
Ao entregar meus dois guarda‑chuvas, o homem os analisou com uma serenidade rara nos dias de hoje. Não houve pressa, nem promessas de respostas imediatas por meio de mensagens ou chamadas. Ele explicou que precisaria de uma semana para concluir o trabalho, um prazo que aceitei sem hesitar, pois sabia que o resultado valeria a espera. Uma curiosa particularidade de seu processo é a ausência total de meios digitais: Alexandre não usa telefone nem tem conta bancária. Tudo é feito à vista, com dinheiro nas mãos, e o comprovante do serviço recebe um toque artesanal – um recibo impresso à mão a partir de um papel que ele retira de uma caixa. O valor total, fixado em 30 reais, parece justo diante do cuidado dedicado a cada ponto e costura.
No dia marcado, voltei à loja para buscar meus guarda‑chuvas. Eles estavam impecáveis, como se tivessem sido recém‑fabricados. Além de devolver o objeto funcional, Alexandre acompanhou a entrega de uma mensagem bíblica, algo que ele oferece a todos os clientes. A mensagem, embora simples, trouxe um sentido de gratidão e reflexo sobre a importância de valorizar o que temos, evitando o acúmulo de lixo nos lixões da cidade.
A experiência foi mais do que o reparo de um objeto; foi um lembrete de que ainda existem pessoas como Alexandre, comprometidas com a sustentabilidade e com o ato de reparar em vez de descartar. Não pude deixar de agradecer também a todos os seguidores que, por meio de mensagens, me indicaram essa dica valiosa. Cada gesto de compartilhar esse tipo de informação ajuda a reduzir o volume de resíduos e a manter viva a tradição do conserto, essencial para uma comunidade mais consciente e menos dependente do consumo desenfreado.
Quer ir lá? É só colocar no google Fundação Bradesco Ceilândia que ele fica colocado lá.
